Reprodução | Magno BorgesA professora Vânia de Souza Borges, de 54 anos, viu a vida mudar completamente após perder o filho, Rafael Borges Amaral, de 26 anos, em meio a um quadro de dependência em apostas on-line, as bets. Desde então, a moradora de Uberlândia (MG) transformou o luto em uma campanha por maior responsabilização de empresas e influenciadores que promovem plataformas de apostas.
Em entrevista concedida à Agência Pública, publicada em 3 de julho de 2026, Vânia defendeu que a publicidade do setor exerce papel decisivo no estímulo ao vício e na ilusão de enriquecimento fácil.
Traficantes modernos
A busca por respostas levou Vânia a recorrer a diferentes órgãos públicos. Depois de procurar a Polícia Civil de Minas Gerais e o Ministério Público estadual sem obter o retorno esperado, ela decidiu encaminhar uma carta à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, instalada no Senado para investigar a atuação das empresas do setor. O documento, ao qual a Agência Pública teve acesso, passou a integrar os registros da comissão, embora o relatório final da CPI tenha sido rejeitado pelos parlamentares.
Na avaliação da professora, quem divulga casas de apostas também deve responder pelos danos causados às pessoas que desenvolvem dependência. Ao explicar esse entendimento, ela comparou a atuação de influenciadores a de traficantes.
"Eles são traficantes, sim. Talvez uma modalidade diferente e mais moderna do tráfico. Assim como o traficante de cocaína, que é tão penalizado pela lei, eu não tenho dúvida que essas pessoas também são traficantes. Elas induzem as pessoas, levam a pessoa ao erro, induzem as pessoas até que elas percam tudo", disse.
Para Vânia, a publicidade das plataformas apresenta uma realidade distante do funcionamento do mercado. Segundo ela, muitos criadores de conteúdo associam riqueza e sucesso às apostas, quando, na verdade, são remunerados pelas empresas para promover esse tipo de conteúdo.
"Eles comercializam um produto, eles simulam que é uma coisa, e esse produto não é. [...] Muitos deles fazem publicidade simulando o ganho de dinheiro nas plataformas, mostram uma riqueza exorbitante, dão a entender que essa riqueza veio dessas plataformas, quando a gente sabe que não é bem assim, que eles estão na verdade ganhando por trás, que eles não estão jogando", afirma Vânia.
O caso de Rafael é apontado pela família como um exemplo das consequências que a dependência em apostas pode provocar. Antes de mergulhar no universo das bets, o jovem levava uma rotina dedicada ao trabalho. Sem interesse em cursar faculdade, decidiu abrir o próprio lava-jato, empreendimento construído com recursos próprios e que se tornou sua principal fonte de renda.
A mãe relembrou que o filho sempre demonstrou disposição para trabalhar, "não tinha preguiça" e construiu a própria independência financeira.
De acordo com o relato feito por Vânia, as primeiras mudanças de comportamento surgiram de forma discreta. Aos poucos, Rafael passou a se isolar, faltar ao trabalho e apresentar reações agressivas, sinais que chamaram a atenção da família, embora ninguém imaginasse, naquele momento, que o problema estivesse relacionado às apostas on-line. "A gente foi notando umas coisas diferentes nele", relatou.
Mudanças no comportamento e em relações
Com o passar do tempo, as alterações de comportamento se intensificaram. Segundo Vânia relatou, o filho deixou de manter a rotina de trabalho, passou a ter dívidas e demonstrava ansiedade constante. Em diversos momentos, familiares tentaram ajudá-lo a reorganizar a vida financeira, sem compreender que ele enfrentava um quadro de dependência relacionado às apostas on-line.
A professora contou que Rafael chegou a esconder a gravidade da situação, comportamento que, para ela, é comum entre pessoas que desenvolvem vícios. À medida que os prejuízos aumentavam, ele recorria a novos empréstimos e buscava recuperar o dinheiro perdido com novas apostas, entrando em um ciclo que se tornou cada vez mais difícil de interromper.
À agência, Vânia afirmou que a família tentou conversar diversas vezes com o jovem, mas encontrou resistência. "Ele falava que ia parar." Segundo ela, a promessa, no entanto, nunca era cumprida. Pouco tempo depois, Rafael voltava a apostar, acreditando que conseguiria recuperar as perdas acumuladas.
A mãe também contou que o filho passou a apresentar mudanças profundas de personalidade durante esse período. O jovem, antes considerado tranquilo e dedicado ao trabalho, tornou-se distante dos familiares e passou a viver praticamente em função das apostas. "Era outra pessoa", resumiu.
Conforme o relato, o impacto não ficou restrito à situação financeira. A dependência passou a comprometer as relações familiares, provocando conflitos frequentes e um sentimento constante de impotência entre as pessoas mais próximas. Vânia afirma que, embora percebesse que o filho precisava de ajuda, não encontrava orientação sobre como agir nem identificava serviços especializados capazes de oferecer atendimento.
Sociedade e conscientização
A professora Vânia avaliou que a falta de informação sobre os riscos das apostas contribui para que muitas famílias só descubram a gravidade do problema quando a situação já está fora de controle. Na avaliação dela, a publicidade das plataformas reforça a ideia de que apostar é apenas uma forma de entretenimento, sem alertar de maneira proporcional para os riscos de dependência.
A mãe de Rafael afirmou que o sofrimento provocado pelo vício em apostas ainda é pouco compreendido pela sociedade. "As pessoas acham que é falta de vergonha na cara, falta de responsabilidade. Não é. É uma doença."
A morte de Rafael fez com que Vânia passasse a dedicar parte da rotina à conscientização sobre os riscos das apostas on-line e à cobrança por mudanças na forma como esse mercado é regulado. Além de procurar autoridades, ela acompanhou os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, instalada no Senado para investigar possíveis irregularidades envolvendo empresas de apostas, influenciadores digitais e a expansão do setor no país.
Na entrevista, a professora afirmou que decidiu enviar uma carta aos integrantes da comissão depois de não conseguir o encaminhamento que esperava junto à Polícia Civil de Minas Gerais e ao Ministério Público estadual. No documento, ela narrou a história do filho e pediu que o caso servisse de alerta para o avanço da dependência em jogos de apostas.
Para Vânia, a responsabilização não deve atingir apenas as empresas do setor. Ela defende que influenciadores e personalidades que promovem plataformas de apostas também respondam pelos impactos provocados pela publicidade.
Segundo a professora explicou, a divulgação feita nas redes sociais cria uma falsa percepção de facilidade para ganhar dinheiro e contribui para atrair pessoas em situação de vulnerabilidade. Na avaliação dela, quem empresta credibilidade às plataformas participa diretamente da estratégia de expansão desse mercado.
Enquanto a comissão reunia depoimentos de representantes das casas de apostas, influenciadores e especialistas, Vânia acompanhava as discussões na expectativa de que fossem aprovadas medidas capazes de reduzir os danos provocados pelas bets. O relatório final da CPI, porém, acabou rejeitado pela maioria dos senadores.
A relatora da comissão, senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), propôs o indiciamento de 16 pessoas e de duas empresas, além da apresentação de um conjunto de projetos para reforçar a fiscalização do setor e ampliar a proteção aos consumidores. Entre os alvos estavam influenciadores acusados de divulgar plataformas investigadas e de promover publicidade considerada enganosa.
Com a rejeição do parecer, nenhuma das recomendações passou a representar a posição oficial da CPI, embora parte do material produzido durante as investigações tenha sido encaminhada aos órgãos competentes.
Na avaliação de Vânia, o resultado foi recebido com frustração. Ela esperava que o Congresso adotasse medidas capazes de reduzir a exposição da população, especialmente de jovens, à publicidade das apostas esportivas.
Mercado cresce
A preocupação da professora acompanha o crescimento acelerado do mercado no país. Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), citados pela Agência Pública, estimam que os brasileiros movimentaram cerca de R$ 360 bilhões em apostas ao longo de um ano.
O avanço do setor também tem despertado alertas de especialistas em saúde mental e de entidades que acompanham o aumento dos casos de ludopatia, transtorno caracterizado pela dependência em jogos de azar.
Para Vânia, discutir apenas a regulamentação econômica das plataformas não é suficiente. Ela sustentou que o país também precisa tratar o problema como uma questão de saúde pública e investir em políticas de prevenção, acolhimento e informação para evitar que outras famílias enfrentem situações semelhantes à vivida por ela.
Embora tenha transformado a própria história em um alerta sobre os riscos das apostas on-line, Vânia afirma que nenhuma mobilização será capaz de trazer o filho de volta. Ainda assim, ela acredita que compartilhar a experiência da família pode evitar que outras pessoas enfrentem o mesmo sofrimento.
A professora disse que seu objetivo passou a ser conscientizar pais, mães e jovens sobre o potencial destrutivo da dependência em apostas, além de defender regras mais rígidas para a publicidade do setor.
Segundo ela, o problema ainda é tratado com pouca seriedade pela sociedade e pelo poder público, apesar do crescimento acelerado do mercado de apostas e do aumento de relatos de famílias afetadas pelo vício.
Para Vânia, reconhecer a ludopatia como uma doença e ampliar o debate sobre o tema são passos essenciais para reduzir os danos provocados pelas bets. Ela também defende que campanhas de conscientização recebam a mesma atenção destinada à prevenção do uso de álcool e outras drogas, sobretudo entre adolescentes e jovens adultos, público considerado mais vulnerável à influência da publicidade nas redes sociais.
A professora afirmou que continuará cobrando providências das autoridades e acompanhando iniciativas relacionadas ao tema. Para ela, a história de Rafael evidencia que os impactos das apostas vão muito além das perdas financeiras e podem comprometer relações familiares, saúde mental e projetos de vida.
Onde buscar ajuda
Em meio ao aumento das discussões sobre os impactos das apostas esportivas, o Ministério da Saúde anunciou a oferta de teleatendimento especializado em saúde mental para pessoas com problemas relacionados às bets em todo o país.
O serviço é voltado a pessoas com 18 anos ou mais, além de familiares e integrantes da rede de apoio. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o formato remoto foi adotado para facilitar a procura por ajuda, já que muitas pessoas deixam de buscar tratamento por vergonha, medo de julgamento ou dificuldade em reconhecer a dependência.
A expectativa inicial da pasta é realizar cerca de 600 atendimentos por mês. A iniciativa é desenvolvida em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), com investimento de R$ 2,5 milhões do Ministério da Saúde.
A medida integra uma estratégia nacional para enfrentar os problemas associados às apostas on-line. Em 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 6.157 atendimentos presenciais relacionados ao tema, número que o ministério considera inferior à demanda potencial existente no país.
Além do teleatendimento, o governo federal disponibiliza a Plataforma de Autoexclusão Centralizada, criada pelo Ministério da Fazenda para permitir que usuários bloqueiem voluntariamente o acesso a sites de apostas autorizados, e o Observatório Saúde Brasil de Apostas, iniciativa destinada ao compartilhamento de informações entre as áreas da Saúde e da Fazenda.
O Ministério da Saúde também publicou a Linha de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas e um guia voltado aos profissionais da rede pública. Informações e orientações podem ser obtidas pela Ouvidoria do SUS, por meio do telefone 136, além de formulário eletrônico, WhatsApp e chatbot disponíveis nos canais oficiais do órgão.
Fonte: Correio Braziliense
Nenhum comentário:
Postar um comentário