Aos 81 anos, petista amplia trajetória no Palácio do Planalto e aposta na redução da jornada de trabalho, ampliação de programas sociais e combate ao crime organizado

Luiz Inácio Lula da Silva (JUAN BARRETO / AFP)
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou, neste domingo (25), mais um capítulo de sua longa trajetória política ao ser reeleito presidente da República para um quarto mandato. Aos 81 anos, o petista superou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026 e garantiu a permanência no Palácio do Planalto por mais quatro anos, até dezembro de 2030.
A vitória foi confirmada após uma disputa acirrada, marcada por uma virada em relação ao primeiro turno. Com 100% das urnas apuradas, Lula conquistou 51,79% dos votos válidos, o equivalente a 64,25 milhões de votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, que recebeu 59,82 milhões de votos. A diferença de aproximadamente 4,43 milhões de votos garantiu a reeleição do petista, que havia terminado a primeira etapa da disputa atrás do adversário, e consolidou uma reação eleitoral construída ao longo das três semanas de campanha do segundo turno.
Primeiro presidente brasileiro eleito para quatro mandatos pelo voto popular, Lula chega à nova gestão com o desafio de conciliar a continuidade de programas sociais que marcaram seus governos com a necessidade de responder a problemas como a segurança pública, o endividamento das famílias, o custo de vida e a pressão sobre as contas públicas.
Na campanha, o presidente apresentou um programa que combina a manutenção de políticas já implementadas com novas propostas. Entre os principais compromissos estão o fim da escala de trabalho 6x1, a redução da jornada semanal para 40 horas sem diminuição salarial, a ampliação do Minha Casa, Minha Vida e a criação de um Ministério da Segurança Pública.
Do sindicalismo à Presidência
Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, Lula deixou o estado ainda criança, quando sua família migrou para São Paulo. Antes de ingressar na política, trabalhou como metalúrgico e ganhou projeção nacional à frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, durante as grandes greves operárias do fim da década de 1970.
Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), legenda que se tornaria uma das principais forças políticas do país. Seis anos depois, foi eleito deputado federal constituinte por São Paulo. Disputou a Presidência pela primeira vez em 1989, quando perdeu para Fernando Collor de Mello, e voltou a ser derrotado nas eleições de 1994 e 1998, ambas vencidas por Fernando Henrique Cardoso.
A primeira vitória presidencial veio em 2002, quando derrotou José Serra (PSDB). Reeleito em 2006, Lula governou o Brasil até 2010, período marcado pela expansão de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, pelo crescimento econômico e pela ampliação do acesso ao ensino superior. Seus governos também enfrentaram escândalos de corrupção, entre eles o mensalão, que atingiu dirigentes e integrantes da base governista.
Fora do poder, o petista enfrentou o período mais turbulento de sua trajetória política. Condenado no âmbito da Operação Lava Jato, foi preso em abril de 2018 e permaneceu detido por 580 dias, até novembro de 2019. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou suas condenações, em razão da incompetência da Justiça Federal de Curitiba para julgar os processos, e confirmou a parcialidade do então juiz Sergio Moro em um dos casos.
Com os direitos políticos restabelecidos, Lula voltou a disputar a Presidência em 2022 e derrotou Jair Bolsonaro (PL), tornando-se o primeiro candidato a vencer um presidente em exercício que buscava a reeleição desde a instituição desse mecanismo no país.
O retorno ao Planalto, em janeiro de 2023, ocorreu em meio a um ambiente de forte polarização política. Uma semana após a posse, as sedes dos Três Poderes, em Brasília, foram invadidas e depredadas por apoiadores do ex-presidente Bolsonaro, em uma tentativa de ruptura institucional.
Quatro anos depois, Lula voltou às urnas diante de outro integrante da família Bolsonaro, desta vez o senador Flávio, em uma disputa que manteve a polarização no centro do debate nacional.
As promessas para o quarto mandato
A redução da jornada de trabalho foi uma das principais bandeiras defendidas por Lula durante a campanha. O programa apresentado à Justiça Eleitoral prevê o fim da escala 6x1, modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de expediente para apenas um de descanso, além da redução da carga semanal para 40 horas, sem corte nos salários.
A proposta, entretanto, depende de mudanças na legislação trabalhista e de aprovação pelo Congresso Nacional. O presidente também promete manter a política de valorização do salário mínimo acima da inflação e ampliar a proteção previdenciária e trabalhista de motoristas e entregadores de aplicativos.
Na área social, o novo mandato deverá preservar o Bolsa Família e ampliar o Minha Casa, Minha Vida, com a construção e contratação de novas unidades habitacionais para famílias de diferentes faixas de renda. O programa também prevê investimentos em urbanização de comunidades, saneamento básico e regularização fundiária.
Na economia, Lula defende a continuidade do arcabouço fiscal, combinada com investimentos públicos e privados, estímulo à indústria nacional e ampliação do crédito. O plano também prevê o aprofundamento da tributação progressiva, com maior cobrança sobre contribuintes de renda elevada, mas não estabelece metas numéricas específicas para crescimento econômico ou trajetória da dívida pública no próximo mandato.
A segurança pública, um dos principais temas da disputa presidencial, também ganhou destaque entre os compromissos do petista. Lula propõe ampliar a integração entre União, estados e municípios, fortalecer o combate às facções criminosas e à lavagem de dinheiro e criar um Ministério da Segurança Pública, separado da atual estrutura do Ministério da Justiça.
Na saúde, as promessas incluem a ampliação do programa Mais Médicos, a redução das filas de consultas e procedimentos especializados no Sistema Único de Saúde (SUS) e a utilização de ferramentas de inteligência artificial para melhorar a organização dos atendimentos.
Para a educação, Lula pretende manter o Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro à permanência de estudantes no ensino médio, além de ampliar a oferta de vagas em tempo integral, creches e institutos federais.
O programa também estabelece compromissos com a transição energética, a preservação ambiental e o combate ao desmatamento, além de defender novos investimentos em infraestrutura por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Na política externa, a expectativa é de continuidade da estratégia de fortalecimento das relações com países do Sul Global, da participação brasileira no Brics e da integração regional por meio do Mercosul.
Ao conquistar mais quatro anos no comando do país, Lula terá pela frente não apenas a tarefa de executar essas promessas, mas também de negociar sua aprovação em um Congresso fragmentado e enfrentar as cobranças sobre os resultados econômicos e sociais de sua administração.
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